
Entre 2024 e 2025, os afastamentos por adoecimento mental na categoria bancária cresceram 15% — índice que pode ser ainda maior diante da subnotificação de casos. O dado integra um painel sobre saúde e condições de trabalho apresentado pelo professor e psicólogo Felipe Faleiros, doutor em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB-MS), durante a 6ª Conferência Estadual dos Bancários do Rio de Janeiro, realizada no último dia 23.
O levantamento reforça um cenário alarmante de desgaste físico e emocional provocado pelas condições impostas pelo setor financeiro. Segundo o especialista, o adoecimento é consequência direta da forma como o trabalho está organizado nos bancos, marcado por metas abusivas, jornadas sem limites, acúmulo de funções, vigilância constante e pressão permanente por resultados.
Felipe também criticou o discurso adotado pelas instituições financeiras em torno de conceitos como meritocracia, flexibilidade e autonomia, que, na prática, escondem a intensificação da exploração e da sobrecarga. “O bancário deixou de ser reconhecido como profissional do sistema financeiro para se tornar apenas um vendedor de produtos”, apontou.
Mesmo acumulando lucros bilionários, os bancos seguem fechando agências e eliminando postos de trabalho, o que amplia ainda mais a pressão sobre os trabalhadores remanescentes. De acordo com a pesquisa apresentada, transtornos de ansiedade e depressão estão entre as principais causas de afastamento na categoria.
Os números revelam a gravidade da situação: mais de 36% dos entrevistados já foram afastados por transtornos psíquicos e quase 20% receberam diagnóstico psiquiátrico formal. O índice de transtornos mentais entre bancários ultrapassa 13%, mais que o dobro da média registrada na população brasileira.
Outro dado preocupante é a chamada “cultura do medo” instalada no setor. Muitos trabalhadores evitam apresentar atestados médicos ou buscar ajuda profissional por receio de retaliações e demissões. Quase 90% da categoria segue trabalhando mesmo apresentando sintomas de adoecimento.
A pesquisa ainda mostra que 59,4% dos bancários consideram crítico o ambiente de trabalho; 67,2% avaliam negativamente a organização laboral; e mais de 61% relatam falta de reconhecimento profissional. O cenário é ainda mais severo entre trabalhadores da linha de frente, submetidos à cobrança permanente por desempenho.
Diante desse cenário, o Sindicato dos Bancários de Araraquara e região defende a adoção de políticas efetivas de prevenção, acolhimento e combate às práticas abusivas no ambiente de trabalho. Para a entidade, saúde mental deve ser tratada como prioridade pelas instituições financeiras, com respeito aos limites humanos, redução das metas abusivas e garantia de condições dignas de trabalho.
O diretor de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato, André Luiz de Souza, destaca que romper o silêncio é fundamental para enfrentar o problema. “Muitos trabalhadores adoecem em silêncio por medo de perseguição ou demissão. Por isso, é essencial denunciar os casos de assédio moral e pressão abusiva. O sindicato está preparado para acolher, orientar e encaminhar essas situações com absoluto sigilo”, afirma.
André também lembra que a entrada em vigor da nova NR-1 reforça a responsabilidade das empresas em relação aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. “A norma deixa claro que saúde mental também é uma questão de segurança e saúde no trabalho. Os bancos terão de assumir responsabilidade sobre práticas de gestão que provocam adoecimento. Não é mais possível ignorar o sofrimento da categoria”, ressalta.
O Sindicato reforça que denúncias de assédio moral, cobrança excessiva e outras formas de violência no ambiente de trabalho podem ser feitas diretamente à entidade, com total confidencialidade. Entre em contato pelo (16) 98115-6150.

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