
*Por Neiva Ribeiro
A liquidação do Will Bank e, anteriormente, o colapso do Banco Master, não podem ser tratados como episódios isolados ou meramente técnicos do sistema financeiro. Eles revelam problemas estruturais graves: a fragilidade da regulação, a insuficiência da fiscalização e os efeitos perversos da flexibilização excessiva promovida nos últimos anos. Mais do que números, balanços ou ativos, estamos falando de pessoas, trabalhadores e trabalhadoras, de famílias inteiras que dependem desses empregos para sobreviver. E de clientes que estão com seus recursos retidos e enfrentam atrasos no pagamento, vivendo insegurança financeira e incerteza, resultado direto da má gestão e da fragilidade da regulação.
O movimento sindical bancário tem atuado de forma firme em defesa dos trabalhadores. Encaminhamos ofício ao responsável técnico nomeado pelo Banco Central, Eduardo Felix Bianchin, reivindicando a garantia integral de todos os direitos previstos na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) da categoria e solicitando uma reunião para acompanhar de perto cada etapa do processo, além de atos e protestos em frente ao banco exigindo respeito aos trabalhadores.
Hoje, temos trabalhadores apreensivos aguardando as definições sobre seus empregos e sobre o pagamento de seus direitos, e temos também investidores esperando o ressarcimento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cujo custo, ao final, recai sobre toda a sociedade. Soma-se a isso o impacto profundo sobre os fundos de pensão, comprometendo diretamente a aposentadoria de milhares de trabalhadores. Ou seja: a conta da irresponsabilidade financeira não fica restrita ao mercado — ela é socializada, recaindo sobre quem vive do trabalho.
Cada demissão reduz o consumo, compromete a renda, afeta a saúde emocional, fragiliza lares e impacta diretamente a estabilidade social. Ainda assim, esses trabalhadores permanecem invisibilizados no debate público, apesar de serem vítimas diretas da má gestão, da desregulamentação e da omissão de mecanismos efetivos de controle. Existem mecanismos para proteger depósitos e investimentos. Mas seguimos perguntando: quem protege o trabalhador? Temos de pensar em mecanismos como a criação de um Fundo Garantidor ao Trabalhador, que possa garantir direitos rescisórios, proteção social e políticas efetivas de recolocação no mercado de trabalho sempre que uma instituição financeira for liquidada ou sofrer intervenção.
O processo de liquidação do Master evidencia os riscos associados à expansão financeira desregulada, à fragilidade dos mecanismos de supervisão e à tolerância com práticas contábeis duvidosas. Investigações em curso apontam para possível ocultação de prejuízos, distorções de informações financeiras e conexões políticas e judiciais que podem ter retardado ações corretivas. Trata-se de um caso que ultrapassa a esfera individual da instituição e revela problemas sistêmicos na governança do sistema financeiro, com impactos diretos sobre a estabilidade econômica, a credibilidade institucional e, sobretudo, a proteção dos trabalhadores. A gestão do Banco Central sob Roberto Campos Neto apostou em uma flexibilização excessiva da regulação financeira, abrindo espaço para práticas arriscadas, expansão desordenada e uso de mecanismos contábeis questionáveis. O resultado está aí: um colapso que mexeu com todos os poderes da República, gerou instabilidade institucional e colocou trabalhadores em situação de instabilidade.
Diante desse cenário, é indispensável fortalecer a atuação do Banco Central e ampliar a fiscalização integrada com outros órgãos reguladores, como CVM, Previc, Ministério do Trabalho, Ministério da Fazenda, Receita Federal e órgãos de controle. A regulação precisa ser sólida nas dimensões financeira, tributária, jurídica e trabalhista. Não é possível admitir que instituições financeiras operem sem regras rigorosas, colocando em risco empregos, economias populares, fundos previdenciários e a própria estabilidade do sistema.
Não por acaso, até mesmo a imprensa internacional tem chamado atenção para essas fragilidades. O jornal New York Times destacou, em reportagem recente, os riscos associados à falta de regulação adequada do sistema financeiro brasileiro, apontando como a flexibilização excessiva cria brechas para crises que acabam sendo pagas pela sociedade.
O Sindicato dos Bancários tem sido a principal trincheira de defesa desses trabalhadores. Atuamos para garantir direitos, cobrar transparência, exigir responsabilidade e acompanhar cada etapa desses processos. Os trabalhadores são parte direta desse prejuízo social e econômico, resultado da má gestão, da omissão regulatória e da fragilidade da fiscalização do Banco Central e de outros órgãos responsáveis.
O Brasil precisa avançar urgentemente em um novo marco regulatório do sistema financeiro, que garanta estabilidade econômica, proteção social, justiça tributária, segurança jurídica e respeito aos direitos trabalhistas. Defender os bancários e bancárias é defender o interesse público, a democracia e o desenvolvimento sustentável do país. Sem regulação forte, fiscalização rigorosa e proteção ao trabalho, seguiremos repetindo crises que penalizam sempre os mesmos: os trabalhadores e a sociedade.
*Neiva Ribeiro é coordenadora do Comando Nacional dos Bancários e presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região

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