
Em 1985 o país vivia a efervescência dos movimentos sociais no período chamado de transição democrática. Movimento contra a carestia (custo de vida da população muito alto, preço dos alimentos nas nuvens), movimento das Diretas Já (na Constituição aprovada pela ditadura civil militar a eleição do presidente da república era indireta, sendo aprovado o nome pelos deputados e senadores, inclusive os chamados biônicos, não eleitos mas indicados pelo ditador de plantão), movimento pela anistia, pedindo a volta dos exilados políticos.
Na Caixa éramos considerados “economiários” com jornada de 8 horas de trabalho (quem optava pela jornada de 6 horas tinha redução do salário, não podia assumir nenhuma função de confiança e a opção era irreversível), éramos proibidos de nos sindicalizarmos, nossa data-base era em janeiro, os empregados admitidos a partir de 1981 eram Auxiliares de Escritório, um quadro a parte fazendo a mesma função que os Escriturários mas com a metade dos salários, e as reclamações trabalhistas eram abertas na Justiça Federal e não na Justiça do Trabalho.
Diante desse quadro, os empregados começaram um processo de mobilização, reuniões e discussões sobre os nossos problemas, a nossa identificação com a categoria bancária, e reivindicamos o direito à sindicalização junto ao Sindicato dos Bancários e a jornada de trabalho dos bancários, na campanha 6 Horas Já!
No dia 30 de outubro de 1985 a Caixa parou. Uma greve nacional com praticamente 100% de adesão garantiu o nosso direito à sindicalização e à jornada de 6 horas que foi implementada a partir de 01 de janeiro de 1987.
Nunca mais fomos os mesmos. A nossa luta nunca parou. Foram muitas campanhas, muitas lutas em defesa dos salários, de plano de cargos e salários, da melhoria do plano de saúde, da democratização da gestão da Funcef, pelo fim da RH-008 que permitia a demissão sem justa causa. Sofremos com demissões, perdas de função, transferências arbitrárias, descontos de dias parados. Numa das campanhas em que tivemos demissões, uma colega, ao responder uma indagação se tinha valido a pena a luta, respondeu “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa).
Uma marca nessa história foi a defesa da Caixa 100% pública, a defesa do papel social da Caixa. Campanhas contra a privatização, campanhas por contratação de mais empregados, e hoje contra o fatiamento e venda das áreas lucrativas do banco.
No dia 30 de outubro de 2022, depois de 37 anos de lutas, o povo brasileiro vai tomar a decisão mais importante, não apenas para nós, as e os empregados e aposentados da Caixa, mas para o futuro do país. Dois projetos antagônicos.
De um lado o fascismo se alimentando de mentiras, disseminando o ódio e estimulando a violência, enfraquecendo o papel do Estado, sucateando e privatizando as estatais, cortando direitos e beneficiando só a camada mais rica da sociedade.
De outro, um projeto que já conhecemos na prática, comprometido com a democracia e com a justiça social, com o fortalecimento do papel social das estatais, com políticas públicas que resgatem a imensa dívida social que ainda temos com uma parcela enorme da população menos favorecida.
Já enfrentamos a ditadura e sabemos o que ela representa e sabemos a quem ela serve. A nós, só nos interessa a Democracia e o Estado de Direito, onde temos a liberdade de lutarmos por nossas reivindicações, com conquistas e com derrotas, mas sempre com dignidade.
Dia 30 de Outubro vamos escolher o lado certo da luta, fazer história novamente.
Maria Fernanda Ramos Coelho, ex-presidente da Caixa
Rita Serrano, representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa
Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae)

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